quarta-feira, 26 de setembro de 2007
sexta-feira, 6 de julho de 2007
LeMetro
Modos de habitar, conflitos e dramas sociais: As disputas pelo uso “lugar” numa Vila Residencial Projeto de Extensão Universitária Co-participantes: Marcos Aurélio Lacerda da Silva – Graduando em Ciências sociais – IFCS/UFRJ Vera Lúcia Valente – Graduada em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ Eduardo Lacerda Mourão – Graduando em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ Maria de Fátima Farias – Graduanda em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ Viviane de Oliveira Mello – Graduanda em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ
Nosso trabalho tem como principal objetivo buscar compreender o modo como se configura o processo de uso e acesso ao uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço público, numa Vila Residencial situada na Ilha do Fundão, dentro da cidade universitária da UFRJ. Parte se da premissa de que os ambientes urbanos são fenômenos culturais que se constituem num processo constante de negociação do uso do espaço de âmbito coletivo – espaço público – envolvendo uma série de grupos de interesse, todos em disputas pelo uso e acesso ao uso do “lugar”. Quais os grupos de interesse que fazem parte do processo? Como entender uma questão tão complexa como a que envolve o processo de regularização fundiária, levando em consideração a dinâmica que envolve as relações entre estes mesmos grupos de interesse? Qual a dinâmica que envolve a relação entre as instâncias mediadoras que controlam o acesso e o uso do lugar? Trata-se de pensar a dinâmica dos conflitos que envolvem os inúmeros agentes sociais em suas disputas pelo uso do “lugar”, o drama social vivido pelos moradores com o processo de regularização fundiária, as formas de negociação da gestão das distâncias sociais, a questão da divisibilidade da propriedade, a coexistência de valores aparentemente díspares como os valores atrelados ao individualismo e os valores identificados com formas de associação “comunitária”, os diversos modos de habitar criados pelos moradores da Vila, a visível estratificação social, a co-presença de instituições oficiais ligadas ao Estado, no âmbito federal, estadual e municipal, (incluindo aí a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ) e organizações locais como a associação de moradores (AMAVILA), algumas ONGS,e os próprios moradores(com suas demandas significativas e “autônomas”, nem sempre vinculadas a estas instâncias mediadoras) todos em disputa pelo monopólio do uso e do acesso ao uso do lugar. Intermediações, mediações, conflitos e alternativas de convivência: Um estudo sobre individualismo e formas de socialização num alojamento de estudantes universitários As relações tensas entre os processos de individuação e as formas de socialização, ou melhor, entre “Indivíduo” e “Sociedade”, fazem parte de uma longa tradição de estudos em Sociologia e Antropologia.Uma outra discussão também presente nas tradições sociológicas e antropológicas - sobretudo nos estudos de Ecologia Humana desenvolvidos pela Escola de Chicago - é a que se realiza através de análises relativas aos processos de criação das formas de convivência e construção de redes de sociabilidades nos ambientes de habitação coletiva e nos meios urbanos os mais diversos. Nosso trabalho tem como principal foco de interesse a problemática que envolve estes dois eixos de análises e suas possíveis conexões: A tensão existente nas relações entre “Indivíduo” e “Sociedade” em relação com as formas de sociabilidade construídas em ambientes de habitação coletiva, tendo como um dos principais focos de análise e estratégia de pesquisa o estudo das formas de uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço comum, ou “espaço público”, através da observação e participação nas ações concretas dos atores sociais envolvidos. A pesquisa vem sendo desenvolvida no alojamento de estudantes da UFRJ, situado na Ilha do Fundão, zona norte da capital carioca, onde o pesquisador- que também mora no local- desenvolve o projeto como parte de uma linha de pesquisa desenvolvida no LeMetro que privilegia o estudo das “Habitações coletivas” em seus mais variados campos empíricos, cortiços, favelas, conjuntos habitacionais, vilas operárias, casas de estudantes, etc.
Nosso trabalho tem como principal objetivo buscar compreender o modo como se configura o processo de uso e acesso ao uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço público, numa Vila Residencial situada na Ilha do Fundão, dentro da cidade universitária da UFRJ. Parte se da premissa de que os ambientes urbanos são fenômenos culturais que se constituem num processo constante de negociação do uso do espaço de âmbito coletivo – espaço público – envolvendo uma série de grupos de interesse, todos em disputas pelo uso e acesso ao uso do “lugar”. Quais os grupos de interesse que fazem parte do processo? Como entender uma questão tão complexa como a que envolve o processo de regularização fundiária, levando em consideração a dinâmica que envolve as relações entre estes mesmos grupos de interesse? Qual a dinâmica que envolve a relação entre as instâncias mediadoras que controlam o acesso e o uso do lugar? Trata-se de pensar a dinâmica dos conflitos que envolvem os inúmeros agentes sociais em suas disputas pelo uso do “lugar”, o drama social vivido pelos moradores com o processo de regularização fundiária, as formas de negociação da gestão das distâncias sociais, a questão da divisibilidade da propriedade, a coexistência de valores aparentemente díspares como os valores atrelados ao individualismo e os valores identificados com formas de associação “comunitária”, os diversos modos de habitar criados pelos moradores da Vila, a visível estratificação social, a co-presença de instituições oficiais ligadas ao Estado, no âmbito federal, estadual e municipal, (incluindo aí a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ) e organizações locais como a associação de moradores (AMAVILA), algumas ONGS,e os próprios moradores(com suas demandas significativas e “autônomas”, nem sempre vinculadas a estas instâncias mediadoras) todos em disputa pelo monopólio do uso e do acesso ao uso do lugar. Intermediações, mediações, conflitos e alternativas de convivência: Um estudo sobre individualismo e formas de socialização num alojamento de estudantes universitários As relações tensas entre os processos de individuação e as formas de socialização, ou melhor, entre “Indivíduo” e “Sociedade”, fazem parte de uma longa tradição de estudos em Sociologia e Antropologia.Uma outra discussão também presente nas tradições sociológicas e antropológicas - sobretudo nos estudos de Ecologia Humana desenvolvidos pela Escola de Chicago - é a que se realiza através de análises relativas aos processos de criação das formas de convivência e construção de redes de sociabilidades nos ambientes de habitação coletiva e nos meios urbanos os mais diversos. Nosso trabalho tem como principal foco de interesse a problemática que envolve estes dois eixos de análises e suas possíveis conexões: A tensão existente nas relações entre “Indivíduo” e “Sociedade” em relação com as formas de sociabilidade construídas em ambientes de habitação coletiva, tendo como um dos principais focos de análise e estratégia de pesquisa o estudo das formas de uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço comum, ou “espaço público”, através da observação e participação nas ações concretas dos atores sociais envolvidos. A pesquisa vem sendo desenvolvida no alojamento de estudantes da UFRJ, situado na Ilha do Fundão, zona norte da capital carioca, onde o pesquisador- que também mora no local- desenvolve o projeto como parte de uma linha de pesquisa desenvolvida no LeMetro que privilegia o estudo das “Habitações coletivas” em seus mais variados campos empíricos, cortiços, favelas, conjuntos habitacionais, vilas operárias, casas de estudantes, etc.
texto LeMetro
Modos de habitar, conflitos e dramas sociais: As disputas pelo uso “lugar” numa Vila Residencial Projeto de Extensão Universitária Co-participantes: Marcos Aurélio Lacerda da Silva – Graduando em Ciências sociais – IFCS/UFRJ Vera Lúcia Valente – Graduada em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ Eduardo Lacerda Mourão – Graduando em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ Maria de Fátima Farias – Graduanda em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ Viviane de Oliveira Mello – Graduanda em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ
Nosso trabalho tem como principal objetivo buscar compreender o modo como se configura o processo de uso e acesso ao uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço público, numa Vila Residencial situada na Ilha do Fundão, dentro da cidade universitária da UFRJ. Parte se da premissa de que os ambientes urbanos são fenômenos culturais que se constituem num processo constante de negociação do uso do espaço de âmbito coletivo – espaço público – envolvendo uma série de grupos de interesse, todos em disputas pelo uso e acesso ao uso do “lugar”. Quais os grupos de interesse que fazem parte do processo? Como entender uma questão tão complexa como a que envolve o processo de regularização fundiária, levando em consideração a dinâmica que envolve as relações entre estes mesmos grupos de interesse? Qual a dinâmica que envolve a relação entre as instâncias mediadoras que controlam o acesso e o uso do lugar? Trata-se de pensar a dinâmica dos conflitos que envolvem os inúmeros agentes sociais em suas disputas pelo uso do “lugar”, o drama social vivido pelos moradores com o processo de regularização fundiária, as formas de negociação da gestão das distâncias sociais, a questão da divisibilidade da propriedade, a coexistência de valores aparentemente díspares como os valores atrelados ao individualismo e os valores identificados com formas de associação “comunitária”, os diversos modos de habitar criados pelos moradores da Vila, a visível estratificação social, a co-presença de instituições oficiais ligadas ao Estado, no âmbito federal, estadual e municipal, (incluindo aí a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ) e organizações locais como a associação de moradores (AMAVILA), algumas ONGS,e os próprios moradores(com suas demandas significativas e “autônomas”, nem sempre vinculadas a estas instâncias mediadoras) todos em disputa pelo monopólio do uso e do acesso ao uso do lugar. Intermediações, mediações, conflitos e alternativas de convivência: Um estudo sobre individualismo e formas de socialização num alojamento de estudantes universitários As relações tensas entre os processos de individuação e as formas de socialização, ou melhor, entre “Indivíduo” e “Sociedade”, fazem parte de uma longa tradição de estudos em Sociologia e Antropologia.Uma outra discussão também presente nas tradições sociológicas e antropológicas - sobretudo nos estudos de Ecologia Humana desenvolvidos pela Escola de Chicago - é a que se realiza através de análises relativas aos processos de criação das formas de convivência e construção de redes de sociabilidades nos ambientes de habitação coletiva e nos meios urbanos os mais diversos. Nosso trabalho tem como principal foco de interesse a problemática que envolve estes dois eixos de análises e suas possíveis conexões: A tensão existente nas relações entre “Indivíduo” e “Sociedade” em relação com as formas de sociabilidade construídas em ambientes de habitação coletiva, tendo como um dos principais focos de análise e estratégia de pesquisa o estudo das formas de uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço comum, ou “espaço público”, através da observação e participação nas ações concretas dos atores sociais envolvidos. A pesquisa vem sendo desenvolvida no alojamento de estudantes da UFRJ, situado na Ilha do Fundão, zona norte da capital carioca, onde o pesquisador- que também mora no local- desenvolve o projeto como parte de uma linha de pesquisa desenvolvida no LeMetro que privilegia o estudo das “Habitações coletivas” em seus mais variados campos empíricos, cortiços, favelas, conjuntos habitacionais, vilas operárias, casas de estudantes, etc.
Nosso trabalho tem como principal objetivo buscar compreender o modo como se configura o processo de uso e acesso ao uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço público, numa Vila Residencial situada na Ilha do Fundão, dentro da cidade universitária da UFRJ. Parte se da premissa de que os ambientes urbanos são fenômenos culturais que se constituem num processo constante de negociação do uso do espaço de âmbito coletivo – espaço público – envolvendo uma série de grupos de interesse, todos em disputas pelo uso e acesso ao uso do “lugar”. Quais os grupos de interesse que fazem parte do processo? Como entender uma questão tão complexa como a que envolve o processo de regularização fundiária, levando em consideração a dinâmica que envolve as relações entre estes mesmos grupos de interesse? Qual a dinâmica que envolve a relação entre as instâncias mediadoras que controlam o acesso e o uso do lugar? Trata-se de pensar a dinâmica dos conflitos que envolvem os inúmeros agentes sociais em suas disputas pelo uso do “lugar”, o drama social vivido pelos moradores com o processo de regularização fundiária, as formas de negociação da gestão das distâncias sociais, a questão da divisibilidade da propriedade, a coexistência de valores aparentemente díspares como os valores atrelados ao individualismo e os valores identificados com formas de associação “comunitária”, os diversos modos de habitar criados pelos moradores da Vila, a visível estratificação social, a co-presença de instituições oficiais ligadas ao Estado, no âmbito federal, estadual e municipal, (incluindo aí a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ) e organizações locais como a associação de moradores (AMAVILA), algumas ONGS,e os próprios moradores(com suas demandas significativas e “autônomas”, nem sempre vinculadas a estas instâncias mediadoras) todos em disputa pelo monopólio do uso e do acesso ao uso do lugar. Intermediações, mediações, conflitos e alternativas de convivência: Um estudo sobre individualismo e formas de socialização num alojamento de estudantes universitários As relações tensas entre os processos de individuação e as formas de socialização, ou melhor, entre “Indivíduo” e “Sociedade”, fazem parte de uma longa tradição de estudos em Sociologia e Antropologia.Uma outra discussão também presente nas tradições sociológicas e antropológicas - sobretudo nos estudos de Ecologia Humana desenvolvidos pela Escola de Chicago - é a que se realiza através de análises relativas aos processos de criação das formas de convivência e construção de redes de sociabilidades nos ambientes de habitação coletiva e nos meios urbanos os mais diversos. Nosso trabalho tem como principal foco de interesse a problemática que envolve estes dois eixos de análises e suas possíveis conexões: A tensão existente nas relações entre “Indivíduo” e “Sociedade” em relação com as formas de sociabilidade construídas em ambientes de habitação coletiva, tendo como um dos principais focos de análise e estratégia de pesquisa o estudo das formas de uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço comum, ou “espaço público”, através da observação e participação nas ações concretas dos atores sociais envolvidos. A pesquisa vem sendo desenvolvida no alojamento de estudantes da UFRJ, situado na Ilha do Fundão, zona norte da capital carioca, onde o pesquisador- que também mora no local- desenvolve o projeto como parte de uma linha de pesquisa desenvolvida no LeMetro que privilegia o estudo das “Habitações coletivas” em seus mais variados campos empíricos, cortiços, favelas, conjuntos habitacionais, vilas operárias, casas de estudantes, etc.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Um Breve histórico da Vila Residencial
A Vila Residencial da UFRJ incorpora o patrimônio histórico vivo da região. Seus primeiros moradores viviam em todas as ilhas do arquipélago, em maior concentração nas ilhas de Sapucaia e do Catalão.
No final da década de 40, devido a problemas de ordem técnica presentes no Edital apontados pelo DASP, o Presidente da República Getúlio Vargas extinguiu a Comissão do Plano da Universidade do Brasil – responsável pela localização da nova Cidade Universitária, - criando o Escritório Técnico da Cidade Universitária do Brasil (ETUB), hoje denominado escritório técnico universitário (ETU). No dia 8 de junho de 1944 foi sancionado o Decreto nº 6.574 , que declarara a área de Vila Valqueire como de utilidade pública para localização da Cidade Universitária. Em 1947 forma-se uma comissão para as considerações finais, que conclui que a futura Cidade Universitária seria localizada numa área formada pela unificação de 09 (nove) ilhas, entre elas a da Sapucaia – onde está localizada a Vila Residencial. A realização de toda essa obra de engenharia só foi possível dada à utilização de uma peça indispensável na transformação desse espaço – a mão-de-obra operária fincada no pilar de cada prédio aqui construído. Infelizmente a história desses operários não ocupa as páginas das brochuras oficiais. Ela existe porque se reatualiza na memória e na luta diária das famílias que residem há mais de 40 anos só no espaço onde antigamente era a ilha da Sapucaia, entre outras. Muitos desses operários foram incorporados pela Universidade nos quadros de trabalho internos, para continuarem dando sua colaboração. São pioneiros, cumpriram e ainda cumprem a nobre função de garantir a preservação do espaço onde se localiza a maior universidade pública do país.
As residências eram dispersas e muitas localizavam-se em áreas privilegiadas no campus. Com a conclusão da obra da ponte Rio-Niterói - que usara o espaço físico do que é hoje a Vila Residencial, para ser depósito de material e alojamento dos operários - as casas de madeira construídas no extremo sul da Ilha do Fundão para os operários da ponte, dado a facilidade de deslocamento por mar dessa mão de obra, foram oferecidas pela direção da Universidade aos funcionários que residiam espalhados pela Ilha Universitária. As casas de madeira foram sendo substituídas gradativamente pelas de alvenaria, com recursos e mão de obra dos próprios moradores.
A “comunidade” passou por várias fases e momentos políticos bastante distintos. Durante muitos anos permanecemos vinculados à Universidade sobre a ótica do assistencialismo. Por conta desse quadro, das instabilidades políticas e das constantes ameaças de remoção já vividas naquela época, do movimento de resistência surge a Associação de Moradores que vem se afirmando a cada dia. Hoje mantêm um bom relacionamento com a administração da UFRJ, melhor que a de alguns anos atrás, quando nem sequer era ouvida. A postura de assistencialismo, como forma de diálogo, por parte da Universidade, hoje está mais distante, mas ainda assim existe; hoje o que se busca é criar mecanismos de parceria através de projetos de extensão, com forte incentivo à pesquisa e excelência acadêmica, reunindo um grupo de pesquisadores que não estão, necessariamente, ligados à Vila de Funcionários, pois acreditamos que a Universidade deve estreitar seus laços com determinados grupos sociais, inclusive este grupo ao qual ela está associada, ( do qual compartilha de uma mesma história), usando de suas atribuições, que são, justamente, a pesquisa, a excelência acadêmica, e os incentivos a projetos de extensão como este, por exemplo.
Como surge a idéia da Pesquisa?
É importante ressaltar que o envolvimento da área de antropologia, ou da “perspectiva antropológica” no Programa de Inclusão Social – Vila Residencial da UFRJ ocorreu em função da demanda de uma moradora da própria comunidade, que é também funcionária da UFRJ e aluna do curso de graduação em Ciências Sociais. Após diversas versões de projetos de pesquisa, manteve-se a convicção, entre os professores orientadores, da importância da inserção da antropologia, assim como se consolidou o interesse em algum tipo de intervenção que colaborasse com as mobilizações que ocorriam na área estudada. Outro ponto importante a ser ressaltado é a consciência do caráter interdisciplinar do empreendimento, o que demandava a colaboração entre as várias áreas envolvidas e até mesmo uma certa flexibilidade na forma de traçar as fronteiras e de distribuir os recursos entre elas. Partindo dessa dupla interlocução – as demandas dos moradores da vila e os projetos de outras áreas envolvidas – delimitou-se dois recortes metodológicos para o desenvolvimento da pesquisa.
O primeiro deles refere-se à memória dos moradores da vila. Atualmente, existem vários projetos de recuperação da memória de coletivos que ocupam áreas de urbanização precária. A proposta era contemplar a Vila Universitária, considerando as suas especificidades e aproveitando iniciativas já existentes. O objetivo era levantar as diferentes versões para a origem da Vila e para os marcos que atravessam a sua trajetória – como forma de alimentar o processo de organização comunitária e como contribuição para a história urbana do Rio de Janeiro.
A concepção que embasa a iniciativa de registro da memória procurava articular dois vetores. De um lado, a sistematização de documentos e fontes produzidos ao longo do tempo em função das diversas intervenções provocadas sobre o território onde hoje se localiza a Vila Universitária. Isso envolve uma visão institucional, atenta aos registros produzidos antes, durante e depois da construção da cidade universitária. De outro lado, a produção de novos registros pela valorização da memória dos próprios moradores, inscrevendo suas visões e seu protagonismo no processo histórico.
O outro recorte escolhido foi o da organização política. São inúmeros os trabalhos que questionam uma forma naturalizada e homogênea de se nomear determinado grupo social como “comunidade”. Para que exista como grupo social relevante e visível, é necessário que essa “comunidade” seja imaginada e a maneira de fazê-lo mobiliza práticas ativadas por protagonistas diversos. O objetivo, nesse caso, era o de sistematizar os modos pelos quais a identidade de “moradores da Vila Universitária” ganha corpo, privilegiando o diálogo com os momentos de mobilização social. Quais são os projetos políticos e quais são seus protagonistas e apoiadores dentro e fora da Vila? Eis a questão crucial desse esforço de pesquisa, que abrangeria o acompanhamento dos projetos em andamento em diversas áreas de intervenção social.
Em um primeiro momento a metodologia utilizada levaria em conta a observação participante, entrevistas e coletas de dados, visando elucidar as trajetórias de vida dos moradores da Vila. A partir disto seria feito um levantamento, tendo como finalidade apresentar a trama e os variados olhares dos atores sobre a origem da Vila Residencial-UFRJ e sobre suas configurações atuais.
Nessa fase da pesquisa, foram entrevistados três moradores que vieram para trabalhar na obra do aterro e construção da cidade universitária (entre 1945 e 60). Uma das moradoras, hoje com cerca de 81 anos, veio com 20 anos trazida por seu marido que já trabalhava na obra. Sua função era fazer e servir comida para os trabalhadores das obras (“dar pensão”). A entrevistada afirmou com orgulho ser a primeira mulher a trabalhar para a UFRJ. Ela morou próximo ao que hoje vem a ser o campus da prefeitura até 1978, quando foi removida para o espaço onde hoje se situa a Vila Residencial.
Outro morador, que também veio do Nordeste trazido por seu pai em 1961 para trabalhar nas obras da universidade, residiu em casas do tipo alojamento para homens próximo ao campo da prefeitura. O terceiro entrevistado veio do Nordeste em 1936, começou a trabalhar na universidade em 1958 já no ETUB (Escritório Técnico da Universidade do Brasil); simultaneamente ao período de trabalho na universidade, concluiu seus estudos e se aposentou como arquivista.
Dos três entrevistados, dois vivenciaram em 1978 o processo de remoção do local onde residiam para o canteiro de obras que tinha por finalidade abrigar os trabalhadores da construção da Ponte Rio-Niterói – local hoje conhecido por Vila Residencial.
Em uma segunda fase de pesquisa continuamos o trabalho de mapeamento, através de um estudo etnográfico, das trajetórias e mudanças ocorridas na Vila Residencial da UFRJ, a partir da fala de antigos moradores do arquipélago - nove ilhas pertencentes à Enseada de Manguinhos do Estuário Inhaúma - onde hoje está situada a Cidade Universitária. A história da Vila Residencial se confunde com a própria história de criação da UFRJ na Ilha do Fundão, onde seus mais antigos moradores foram trabalhadores da construção dos primeiros prédios da Cidade Universitária erguidos sobre oito ilhas aterradas. As famílias existentes no local e os migrantes do nordeste foram absorvidos como força de trabalho. Muitos trabalharam como servidores da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, vigilantes que ajudaram a tomar conta das entradas da cidade e operários da construção civil (pedreiros, pintores, eletricistas, etc.), sendo posteriormente absorvidos no quadro de funcionários da UFRJ. Alguns foram removidos em um momento onde ainda não existiam respaldos jurídicos para os moradores nativos, outros permaneceram por terem algum vínculo com a universidade. Os atuais moradores da Vila Residencial são funcionários (ativos e aposentados da UFRJ), ou trabalhadores de iniciativa privada, terceirizados e seus dependentes.
Nessa segunda fase da pesquisa a metodologia aplicada se materializou com entrevistas, agora mais aprofundadas, priorizando a perspectiva dos moradores acerca das experiências envolvendo a construção, ocupação e transformações da Vila Residencial ao longo de pouco mais de 40 anos.
Nos organizamos fazendo a divisão das tarefas entre os pesquisadores, ficando estabelecidos quatro eixos temáticos para a realização de entrevistas e observação, explicados a seguir:
O primeiro focaliza as histórias contadas pelos moradores mais antigos da Vila que residiram nas ilhas e seus descendentes. Essas histórias foram sendo registradas, tanto através de entrevistas mais convencionais, quanto através de um procedimento que visava articular memória e espaço. Neste último caso, a entrevistadora acompanhava o circuito que era feito entre as ilhas por seus entrevistados, circuito que era comentado por estes (“visita-guiada, ou seja enquanto andavam pelo trajeto das antigas ilhas, hoje Cidade universitária, iam relembrando suas histórias”).
O segundo toma os vários segmentos religiosos existentes, suas atividades comunitárias e as diferentes relações que estabelecem com a Vila e seus moradores. A partir de um mapeamento das igrejas presentes na Vila, seriam feitas entrevistas e atividades de observação.
O terceiro se volta para a compreensão do movimento associativo existente e suas relações com a Vila e a universidade. Seriam realizadas entrevistas com moradores da Vila Residencial que atuam na Associação de Moradores, bem como com ex-integrantes da Associação e com moradores apenas associados.
O quarto constitui uma experiência de observação participante dos pesquisadores em atividades artísticas desenvolvidas pelos moradores. A idéia era acompanhar as crianças que participavam do Lab Lata – Laboratório de Fotografia Pinhole, desenvolvido na Vila, que se propunha, através de uma técnica alternativa de produção de imagens, a refletir sobre o ato fotográfico, o papel do fotógrafo e as relações que estabelece entre os espaços vividos e as imagens fotografadas.
O tratamento desses eixos foi idealizado pelos coordenadores do projeto, de maneira que cobrisse as diferentes visões de grupos sociais constituintes da Vila. Os resultados consistiriam no registro dos relatos e na produção de um vídeo.
O que veremos a seguir são algumas notas iniciais acerca dos resultados de pesquisa, tomando como referência os quatro eixos já delineados em 2006. Desses quatro, um não pôde ser implementado pela interrupção das atividades do Lab-Lata. Dos outros três, o eixo mais explorado foi o primeiro, sobre as narrativas dos moradores mais antigos, devido a sua centralidade para o projeto. As notas analíticas são complementadas pela transcrição de uma entrevista referente ao segundo eixo e de uma síntese sobre outra referente ao terceiro eixo. A transcrição dos demais registros está sendo preparada e estará em breve disponível. Além disso, um primeiro vídeo já foi produzido para ser apresentado na Jornada de Iniciação Científica de 2006, contendo imagens fotográficas e textos. Um segundo está sendo preparado a partir das filmagens que foram realizadas durante os passeios de moradores mais antigos pelas ilhas que formam o Fundão.
Antes de passarmos às notas referentes ao primeiro eixo, alguns pontos gerais podem ser mencionados. A Vila Universitária parece estar marcada por uma situação e por uma impressão de ambigüidade, na medida em que sobre ela se projetam fatores e representações que apontam em direções opostas. Por exemplo, ao mesmo tempo em que os moradores elogiam a “tranqüilidade” do lugar, reclamam de seu isolamento (“sem carro não se sai daqui”). Em outro plano, configuração semelhante se instaura quando se confronta a precariedade das condições de vida e de moradia ao vínculo (mal definido) que associa o lugar a uma instituição tão importante na esfera pública quanto a UFRJ – a própria relação com a UFRJ é perpassada por ambigüidades, uma vez que a universidade ora aparece como uma ameaça, ora como uma aliada.
Outra observação dirige-se à própria constituição da Vila, partindo-se da constatação de que a relação com a UFRJ não parece suficiente para defini-la. Sua formação não pode ser desvinculada de processos históricos que estão relacionados com a cidade como um todo e com seu lugar no país. Assim atestam a construção da Ponte Rio-Niterói e a presença de imigrantes nordestinos entre seus moradores. Focando-se no presente, percebe-se que embora os funcionários e seus dependentes constituam a maioria dos seus moradores, há moradores sem vínculos com a universidade. Essas e outras indicações apontam para a heterogeneidade desse lugar e se expressam em questões recorrentes para seus moradores, como as oposições entre mais velhos e mais novos e a definição de formas de mobilização que não sejam excludentes sem deixarem de ser justas. Evidentemente, essas observações não afetam – apenas complexificam – o papel de mediação que a UFRJ pretende desempenhar na relação entre a Vila e a cidade.
3.1. As narrativas dos moradores antigos
As ilhas eram nove, como nos informam a cartografia e seus antigos moradores. Todas eram habitadas, por moradores e famílias que podemos identificar a princípio como descendentes de portugueses, índios, e nordestinos (que em sua grande maioria aqui chegaram para trabalhar nas construções do começo do século no Rio de Janeiro (Pereira Passos)).
Pela fala de seus moradores, podemos identificar a ocupação dessas ilhas. A Ilha da Sapucaia era onde moravam os descentes de portugueses empregados no Departamento de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro, ou seja, funcionários do Estado. Uma parte dessa Ilha (onde hoje se encontra a Vila) era usada como aterro sanitário, onde atracavam barcas transportando restos de comida, animais mortos e restos de construções antigas. Nesse local podiam ser encontrados pedaços de pedras preciosas e ouro - destroços de construção dos grandes monumentos e casas - que agora eram demolidos para dar lugar à nova cidade. Na localização onde hoje se encontra a Divisão de Transportes da UFRJ, ficava o Cais de onde vinham esses carregamentos. Também tínhamos nessa ilha um pequeno cinema e uma escola. No inicio as moradias se encontravam na altura do IEN, próximo ao local do aterro sanitário.
Na Ilha do Fundão, compreendida entre a BIORIO e a ponte que liga o fundão à Ilha do Governador, morava seu João, sua filha e sua esposa. Alguns falam que os três eram índios; outros falam que apenas a esposa e a filha: há várias versões para essa família. Na Ilha do Catalão houve uma grande concentração de famílias, em sua grande maioria nordestinas; no momento da remoção algumas foram despejadas, outras passaram para vila e outras ainda foram morar em conjuntos habitacionais - eram as três alternativas apresentadas. Quem a universidade absorvia como funcionário tinha duas escolhas: conjuntos habitacionais onde pudessem assumir uma mensalidade, ou vila residencial. Os moradores desta ilha dizem que ali deveria ter existido uma senzala, pois lá ainda existia uma “Casa-Grande” com restos de correntes e um local onde deveriam ser presos os escravos. As lendas acerca dessa localidade são muitas, existindo até a hipótese de ser mal-assombrada.
A Ilha de Baiacu era assim nomeada pela grande incidência local de cardumes de peixes dessa espécie; nela existiam famílias cuja principal fonte de renda era a pesca. De um modo geral, podemos dizer que as famílias das ilhas, em sua grande maioria, quando não estavam envolvidas com a construção civil, viviam da pesca.
Já a Ilha das Cabras levou esse nome pois ficaram marcadas em seu contexto de existência, famílias que faziam a criação de cabras que abasteciam de víveres as demais ilhas do arquipélago. Ali ficava localizado o arsenal de armamentos da aeronáutica, e seus moradores também faziam parte da segurança da base aérea. Pouco temos a falar sobre essa ilha pois surgiu com essa finalidade e ainda hoje é vista por essa peculiaridade.
As Ilhas Pindaí do França e do Ferreira eram muito próximas do que hoje é a prefeitura universitária e o ETU, coração da universidade principalmente no momento de sua construção. Ali, além de moradores fixos como a Srª Avelina e seu esposo, existiam alojamentos que abrigavam os trabalhadores que ainda não haviam se estabelecido com suas famílias. Ficava mais ou menos na área hoje compreendida entre o CCMN e o Hospital universitário. Ali também estava localizada a pensão onde todos podiam almoçar e descansar antes de pegar no “batente”.
Na Ilha do Bom Jesus, ilha militar compreendida entre o CT e a margem da baía da Guanabara até o quartel, também se encontravam famílias que resistem até hoje à remoção. Viviam e ainda vivem da pesca para venda bruta ou terceirizada, ou seja, possuem um bar onde todos podem comer um peixinho frito ou cozido.
O transporte interno no arquipélago era todo feito por barcos, ou chatas (barcas); a água não era potável e tinha que ser transportada do bairro de Ramos para as ilhas. A travessia entre algumas das ilhas em maré baixa podia ser feita a pé, ou em pequenos barcos.
Os entrevistados apontam que ao chegarem para iniciar os trabalhos de aterro e construção dos prédios da UFRJ ouviam piadas relativas ao seu local de origem. Os três, sendo naturais do nordeste, ouviam expressões do tipo: “É da terrinha?” ou “A faca sobe de cima para baixo?”. Entendemos que essas expressões marcam a diferenciação entre os grupos. As frases citadas acima fazem referência aos trabalhadores oriundos do Nordeste que enfrentaram determinados distanciamentos devido à sua naturalidade. Os entrevistados mencionam a existência de uma índia, vista nas localidades em frente ao mar, que segundo os mesmos olhava a lua e era triste. Um dos entrevistados mencionou a figura de um “malandro”, um trabalhador não morador da ilha que se trajava caracteristicamente como dançarino de gafieira.
Entendemos que hoje, existem os moradores da atual Vila Residencial que passaram pelo processo da remoção em 1978 e existem aqueles que vieram de lugares externos às ilhas da cidade universitária pós-remoção. Portanto são dois grupos diferenciados que tomam como referência de vida no local a remoção em 1978. Com base em terminologia utilizada pelo sociólogo Norbert Elias, os moradores mais antigos em análise inicial compreendemos como os estabelecidos; os moradores mais recentes entendemos como outsiders.
As narrativas dos moradores antigos cultivam o “mito” de seu passado e o têm como a diferença decisiva entre eles e os "outsiders". Guardam ciosamente um acervo enorme de lembranças, apegos e aversões quanto aos fatos e itinerários coletivos (reais e fantasiados) da vida da “aldeia”. O grupo estabelecido sente-se com isto mais seguro e garantido quanto à sua coesão interna e valor. Os comportamentos de seus membros no dia a dia têm aí sua principal referência para a convivência necessária com os demais. Em entrevista, um dos moradores considerado pelo grupo como “morador antigo”, ao referir-se à determinadas lembranças se dizia incapaz de reproduzi-las à altura de um outro morador que morava há mais tempo. Esse comportamento nos permitiu refletir sobre a possibilidade desses grupos se representarem sob o espectro da hierarquia interna, usando como critério a ordem de precedência dentro do próprio segmento dos “antigos”.
A Vila residencial se apresentou inicialmente nesta pesquisa marcada por grupos que se distinguem de acordo com o sentimento temporal em relação aos outros moradores. Os critérios utilizados pelos moradores do tipo “antigo” e mais “novo” nos proporcionaram pensar em um esquema mental hierárquico onde a prioridade na chegada ao lugar se tornou o principal fundamento a ser aceito pelas duas partes. As narrativas expressam as posições referidas ao “status” dos moradores à medida que a fala dos “antigos” se torna a fala da tradição e da representação histórica da Vila em relação ao morador novo.
Ao longo do trabalho percorrido até aqui, foi-se materializando a idéia de que vale a pena levar em conta, como possibilidade interpretativa com valor crítico para a pesquisa, a existência de rituais de passagem. Em todas as culturas sempre estiveram presentes cerimônias assinalando a passagem de uma pessoa para uma nova fase, ligada à idade, lugar, estado ou posição social, realização pessoal, familiar, profissional ou espiritual e outras que ainda não se tenha tomado consciência. Infelizmente, com o advento das sociedades modernas, estas comemorações foram reduzidas, algumas desvirtuadas, outras escondidas, restando algumas poucas que marcam socialmente de forma abrangente estas transições (como batizado, casamento , enterro e mudança residencial, por exemplo).
Os rituais de passagem em sua grande maioria implicam no uso de maus tratos, de dor e, naturalmente, temor e angústia dos envolvidos. No entanto esses acontecimentos podem ter por finalidade fortalecer, pelo sofrimento (comum), os laços de solidariedade entre um grupo de candidatos, ou provar aos envolvidos e à sociedade a sua importância. Contudo ainda podem ser explicados em termos da hostilidade concentrada e verificada entre dois grupos de pessoas; os que praticam e os que sofrem os maus tratos, cujas partes, por sua vez, apresentam-se em vias de ser incorporados à categoria do primeiro.
Tentando perseguir essa idéia, da ida para morar na Vila como um ritual de passagem - levando em consideração as diferentes proporções e as trajetórias de vida de seus diversos moradores - é que comentamos preliminarmente a construção de uma memória da Vila. Não se pode perder de vista alguns aspectos importantes, como a localidade onde viviam e a maneira como se deu a locomoção/ remoção.
Quando trabalhamos com “memória” toda fala tem importância e sentido; às vezes não aparecem à primeira vista, mas aos poucos vão completando linhas de raciocínio dando sentido a longos períodos de pesquisa. Um bom exemplo para tentar explicar essa situação se traduziu muito cedo na pesquisa. Quando perguntávamos aos moradores se gostavam de morar na vila, duas respostas surgiam: “Sim, eu adorei vir morar aqui, este local é muito calmo; apesar da falta de infra-estrutura temos uma casa que é nossa” (esse entrevistado não se preocupava nem com a idéia de não ser proprietário de fato); no entanto, outros diziam não ter gostado nada de ter que vir morar num lugar tão distante de tudo, sem infra-estrutura, sem nenhuma garantia de moradia. Já nesse momento pudemos detectar uma lacuna e indagar o porquê dessa diferença.
Posteriormente, alguns começaram a se abrir mais e falar de onde haviam saído para vir morar na vila. Surge aí a primeira constatação: os que gostaram à primeira vista de morar na vila foram alguns funcionários, que moravam na Baixada fluminense, no complexo da Maré (ainda palafitas) e que foram autorizados pela universidade para residir na localidade; em contrapartida, o outro grupo eram os moradores das antigas ilhas que tiveram o prazer de viver a natureza em sua essência e que por motivos de ordem prática da instituição foram removidos para a vila de forma muitas vezes agressiva, pois tiveram que deixar suas casas nas mais diversas localidades da cidade universitária, mais próximas das saídas de prédios recém- construídos, para morar em um local distante de tudo e sem a mínima infra-estrutura.
3.2. As igrejas na Vila
As observações, no período do Projeto, se fixaram basicamente sobre a presença da Igreja Católica. Dois pontos podem ser destacados: por um lado, a construção do templo no local mais valorizado da Vila e a conseqüente ocupação daquele espaço central veio da iniciativa dos próprios moradores – foi apenas em um momento posterior que ocorreu a presença de um sacerdote (capelão militar) e de religiosas (que moram no local). Por outro lado, isso não significa que não haja tensões com os moradores da Vila e com outros de seus agentes. O espaço onde se localiza o templo católico é também o espaço predileto para o lazer na Vila, especialmente o das crianças. Uso religioso e uso profano, nesse contexto, podem se confrontar, como assinala o fato de que a imagem sacra ali colocada ser às vezes é apropriada para uma brincadeira infantil. Outro indício que vai na mesma direção é o espaço utilizado como moradia pelas religiosas graças a uma cessão da associação de moradores; o mesmo espaço já havia abrigado uma creche e a atual gestão da associação de moradores faz questão de lembrar essa destinação comunitária. A mesma gestão ainda avalia que a Igreja Católica peca por pouca intervenção “comunitária” no bairro.
3.3. O perfil da AMAVILA
A AMAVILA – Associação de Moradores e Amigos da Vila Residencial, localizada na Ilha da Sapucaia, no complexo Universitário do Fundão – RJ, após várias fases e momentos políticos, tem, no trabalho desempenhado pela gestão “Transformar Para Mudar”, a concretização das ações formadoras/transformadoras de políticas públicas.
Observamos que o movimento social planejado e organizado desta gestão, apoiado no excelente grau intelectual e visão estratégica de seus atores, vem possibilitando e viabilizando, através de suas ações, percorrer caminhos antes impossíveis de serem trilhados devido ao forte assistencialismo que ali era empregado. E em certa medida vem contribuindo com outro fator fundamental e importante que é o registro da memória de suas vivências.
Nas entrevistas realizadas, identificamos que mesmo os moradores que demonstram indiferença em participar nas mobilizações, ou ainda, o “estrangeiro” que por natureza, não é “proprietário de terra” e conseqüentemente não se sente parte do grupo (SIMMEL), contribuíram, pois foram ponto de apoio para o desenvolvimento de uma “sociabilidade pura” para os que se mantiveram de forma associada à frente do movimento que agrupou em unidade, dados concretos e imediatos de sua realidade histórica e que está presente neles de maneira a engendrar ou mediar influências sobre outros, ou que receba tais influências (SIMMEL). Cada pessoa ali moradora está possibilitando alcançar um projeto formulável em termos comuns.
Após os dissabores de terem sido excluídos, sem qualquer tipo de explicação, de dois Projetos Urbanísticos, eles hoje vêem o início da luta ter o primeiro resultado favorável. Em 26.10.2006, a Vila Residencial recebeu o aval para a aplicação de resultados positivos na implantação de políticas públicas que atendam suas necessidades. Esta possibilidade toma corpo e robustez de fato e de direito após a visita de representantes do Ministério das Cidades / DF que lá estiveram, atentos aos clamores locais.
A pesquisa busca recuperar as identidades locais. Cabe inserir nesse contexto um modo de produção que retrata não uma realidade estática, mas a pluralidade das culturas, que constrói, ou tenta construir, um discurso de identidade associado à questão da luta dos moradores da vila, marca de um agrupamento, moradores da Ilha do Fundão, na tentativa de “reconstituir” sua história através da oralidade, buscando garantir sua existência no futuro, que se encontra ameaçado pela construção de um parque industrial que fará a Vila Residencial desaparecer para dar espaço a seus novos prédios. Quando vemos que quem irá se debruçar sobre o tema é uma moradora nova (dez anos na Vila), percebemos a importância da cultura letrada com relação à cultura popular de base oral ,ou seja, era o discurso oficial que viria mostrar a tradição oral do povo, tendo em vista que só se consolidaria quando reconhecida, passando a fazer parte de um registro regulado pela sociedade, o registro escrito. Outro aspecto a ser levado em consideração era o fato de que, supostamente, por não terem uma história (e existência) registrada formalmente, não teriam, também um legado cultural, este é um dos nossos maiores desafios, tentar apreender o legado cultural deste grupo, através das suas próprias formas de preservação e transmissão. Logo “questões de cidadania” passam à sua margem. Esses moradores, não reconhecidos como cidadãos, são vistos como um grupamento fora das estatísticas oficiais do governo, ou seja, não existem.
Enquanto pesquisadores, temos que levar em consideração que tudo que vivemos, ouvimos, vemos atravessar em nosso íntimo por uma releitura e (re) construção de acordo com nosso modo de ver , ser e de pensar que é derivado das experiências que passamos durante nossa vida, logo traduzimos tudo aquilo que percebemos. Quando tentamos reproduzir algum fato, ele terá a nossa percepção e versão pessoal, logo não será mais original, mais uma tradução de como o sentimos.
Observamos várias versões do mesmo acontecimento, vários tipos de narrativas contando o mesmo fato; existem divergências no modo de contar, porém a essência da história é resguardada.
O escritor/ tradutor (nesse caso a moradora) sente-se ineficaz diante de uma tarefa tão complexa e grandiosa, pois como resolver a tarefa difícil de traduzir uma narrativa oral que esteve sempre em movimento, presente na voz dos moradores, para um registro escrito, estático, que só concede uma variante (versão) que é para sempre?
Outro debate que se constitui a partir das questões levantadas foi o papel do militante, a construção da análise etnográfica e as decisões políticas sugeridas nesse processo. A pesquisadora, ao problematizar algumas das questões surgidas com os dados de pesquisa, interou a necessidade e a importância da observação participante no processo etnográfico da pesquisa, quando essa permite uma imersão num outro espaço de vida.
Ouvir as pessoas, sujeito das intervenções públicas, exige um tempo e um exercício particular (particularidade que traduz a necessidade e importância da antropologia nesse processo). Nesse caso em especifico e ainda em muitos lugares do país, o antropólogo terá que pensar em políticas públicas de assistência (na falta do poder publico); ou ausência da vontade de diálogo e participação popular (no caso da Vila, isso ocorre devido ao período de ausência de políticas públicas na localidade).
A construção da alteridade, nesse caso, tornou-se difícil, principalmente com relação ao lugar do pesquisador frente ao ator político. Além de se colocar à frente dos problemas vividos pelos moradores da Vila, ele (o antropólogo) necessitou analisar e ver de frente o quão complexos são os problemas vividos pelos próprios agentes de políticas públicas. Ocupar o lugar de mediador/ sujeito, entre o poder público/ e os sujeitos da ação, muitos engajados (politicamente ou não), exige uma nova invenção do olhar antropológico. Em contato com os membros da própria Vila, a pesquisadora também se preocupou com certos compromissos éticos, levando em consideração que a analise antropológica do mesmo modo que levanta os estereótipos, também corre o risco de reafirmá-los.
Foi importante reafirmar o papel do pesquisador, nesse contexto, sua duplicidade de pesquisador e militante. Não é possível firmar o debate numa suposta neutralidade acadêmica, mas tomar uma permanente vigilância ética no processo político de tradução de valores e identidades.
Relatório de Eduardo Mourão Lacerda
Considero que minha participação no Programa está sendo vital para minha graduação; tomei contato pela primeira vez com a Extensão, de uma forma geral, esta que é um dos pilares de atuação da UFRJ e talvez seu maior ponto de ação e convergência com outros setores da sociedade. Pude alargar meus limites espaciais na UFRJ, já que estudo no IFCS, no centro do Rio, e muito pouco conhecia da realidade do Campus do Fundão e da Praia Vermelha, e muito menos da existência da Vila Residencial, foco do projeto que participei. Também alarguei muito minha experiência universitária, pois através do Programa entrei em contato com estudantes de diversas outras áreas da Universidade, e pudemos trocar muitos conhecimentos e viver muitas experiências que virão a enriquecer o processo de formação acadêmica individual de cada um. Foi fundamental a experiência humana de contato com a realidade da Vila Residencial, a possibilidade de travar conhecimento com os moradores e sobre aquela realidade construir conhecimento também. A possibilidade de intervir positivamente na realidade da Vila através da extensão foi o maior ganho que o Programa particularmente me proporcionou. É muito gratificante o reconhecimento dos moradores para com o trabalho, que proporciona trocas memoráveis entre segmentos distintos da sociedade e articula dimensões das realidades “local e extra-local”, inserindo-nos (moradores e estudantes) um sentimento coletivo de participação, envolvimento e pertencimento.
Fundamental para minha formação foi a possibilidade de realizar pesquisa e trabalho de campo na Vila, e experimentar na prática lidar com conceitos-chave para a área de Ciências Sociais, e mais especificamente de antropologia. Depois de dois anos fazendo graduação, foi uma oportunidade única de transpor estes conhecimentos teóricos acumulados para uma realidade prática, tendo que trabalhá-los e adequá-los a uma realidade específica e complexa.
Por fim, devo ao Programa a oportunidade de apresentar um trabalho pela primeira vez em um Congresso de Extensão e numa Jornada de Iniciação Científica. Foi fabulosamente enriquecedor, em ambas os casos, travar contato direto com trabalhos de praticamente todas as áreas e envergaduras da UFRJ, apresentando aos colegas meu trabalho e recebendo deles conhecimento sobre diversas áreas as quais muitas vezes desconhecia.
Relatório de Maria Fátima Farias
Foi muito importante estar participando do programa, pois foi através dele que após 4 anos na graduação pude pela primeira vez participar do Congresso de Extensão e da Jornada de Iniciação Científica.
Estar participando da pesquisa possibilitou conhecer uma outra realidade na própria Universidade.
Pude desenvolver os conceitos apreendidos em sala de aula confrontando-os na prática.
Facilitou para a interação com outros colegas estudantes de outras faculdades, muito necessárias, no nosso entendimento, na formação acadêmica. É muito importante este trabalho com outros companheiros de outras áreas; é uma troca riquíssima de conhecimento.
O mais gratificante foi poder trocar energia com pessoas tão cheias de vida, como são os moradores da Vila Residencial.
Foi importante sentir na prática como realidades distintas da nossa tem tanta importância para seus afetos e que por não conhecermos não nos desperta atenção. Essa compreensão só vem depois que passamos a interagir e sentir o que o outro pensa, sente, gosta, deseja. Provavelmente se não fizéssemos parte desta equipe haveria grande chance de que não nos sensibilizássemos com os anseios e sonhos desses moradores da Vila Residencial.
No final da década de 40, devido a problemas de ordem técnica presentes no Edital apontados pelo DASP, o Presidente da República Getúlio Vargas extinguiu a Comissão do Plano da Universidade do Brasil – responsável pela localização da nova Cidade Universitária, - criando o Escritório Técnico da Cidade Universitária do Brasil (ETUB), hoje denominado escritório técnico universitário (ETU). No dia 8 de junho de 1944 foi sancionado o Decreto nº 6.574 , que declarara a área de Vila Valqueire como de utilidade pública para localização da Cidade Universitária. Em 1947 forma-se uma comissão para as considerações finais, que conclui que a futura Cidade Universitária seria localizada numa área formada pela unificação de 09 (nove) ilhas, entre elas a da Sapucaia – onde está localizada a Vila Residencial. A realização de toda essa obra de engenharia só foi possível dada à utilização de uma peça indispensável na transformação desse espaço – a mão-de-obra operária fincada no pilar de cada prédio aqui construído. Infelizmente a história desses operários não ocupa as páginas das brochuras oficiais. Ela existe porque se reatualiza na memória e na luta diária das famílias que residem há mais de 40 anos só no espaço onde antigamente era a ilha da Sapucaia, entre outras. Muitos desses operários foram incorporados pela Universidade nos quadros de trabalho internos, para continuarem dando sua colaboração. São pioneiros, cumpriram e ainda cumprem a nobre função de garantir a preservação do espaço onde se localiza a maior universidade pública do país.
As residências eram dispersas e muitas localizavam-se em áreas privilegiadas no campus. Com a conclusão da obra da ponte Rio-Niterói - que usara o espaço físico do que é hoje a Vila Residencial, para ser depósito de material e alojamento dos operários - as casas de madeira construídas no extremo sul da Ilha do Fundão para os operários da ponte, dado a facilidade de deslocamento por mar dessa mão de obra, foram oferecidas pela direção da Universidade aos funcionários que residiam espalhados pela Ilha Universitária. As casas de madeira foram sendo substituídas gradativamente pelas de alvenaria, com recursos e mão de obra dos próprios moradores.
A “comunidade” passou por várias fases e momentos políticos bastante distintos. Durante muitos anos permanecemos vinculados à Universidade sobre a ótica do assistencialismo. Por conta desse quadro, das instabilidades políticas e das constantes ameaças de remoção já vividas naquela época, do movimento de resistência surge a Associação de Moradores que vem se afirmando a cada dia. Hoje mantêm um bom relacionamento com a administração da UFRJ, melhor que a de alguns anos atrás, quando nem sequer era ouvida. A postura de assistencialismo, como forma de diálogo, por parte da Universidade, hoje está mais distante, mas ainda assim existe; hoje o que se busca é criar mecanismos de parceria através de projetos de extensão, com forte incentivo à pesquisa e excelência acadêmica, reunindo um grupo de pesquisadores que não estão, necessariamente, ligados à Vila de Funcionários, pois acreditamos que a Universidade deve estreitar seus laços com determinados grupos sociais, inclusive este grupo ao qual ela está associada, ( do qual compartilha de uma mesma história), usando de suas atribuições, que são, justamente, a pesquisa, a excelência acadêmica, e os incentivos a projetos de extensão como este, por exemplo.
Como surge a idéia da Pesquisa?
É importante ressaltar que o envolvimento da área de antropologia, ou da “perspectiva antropológica” no Programa de Inclusão Social – Vila Residencial da UFRJ ocorreu em função da demanda de uma moradora da própria comunidade, que é também funcionária da UFRJ e aluna do curso de graduação em Ciências Sociais. Após diversas versões de projetos de pesquisa, manteve-se a convicção, entre os professores orientadores, da importância da inserção da antropologia, assim como se consolidou o interesse em algum tipo de intervenção que colaborasse com as mobilizações que ocorriam na área estudada. Outro ponto importante a ser ressaltado é a consciência do caráter interdisciplinar do empreendimento, o que demandava a colaboração entre as várias áreas envolvidas e até mesmo uma certa flexibilidade na forma de traçar as fronteiras e de distribuir os recursos entre elas. Partindo dessa dupla interlocução – as demandas dos moradores da vila e os projetos de outras áreas envolvidas – delimitou-se dois recortes metodológicos para o desenvolvimento da pesquisa.
O primeiro deles refere-se à memória dos moradores da vila. Atualmente, existem vários projetos de recuperação da memória de coletivos que ocupam áreas de urbanização precária. A proposta era contemplar a Vila Universitária, considerando as suas especificidades e aproveitando iniciativas já existentes. O objetivo era levantar as diferentes versões para a origem da Vila e para os marcos que atravessam a sua trajetória – como forma de alimentar o processo de organização comunitária e como contribuição para a história urbana do Rio de Janeiro.
A concepção que embasa a iniciativa de registro da memória procurava articular dois vetores. De um lado, a sistematização de documentos e fontes produzidos ao longo do tempo em função das diversas intervenções provocadas sobre o território onde hoje se localiza a Vila Universitária. Isso envolve uma visão institucional, atenta aos registros produzidos antes, durante e depois da construção da cidade universitária. De outro lado, a produção de novos registros pela valorização da memória dos próprios moradores, inscrevendo suas visões e seu protagonismo no processo histórico.
O outro recorte escolhido foi o da organização política. São inúmeros os trabalhos que questionam uma forma naturalizada e homogênea de se nomear determinado grupo social como “comunidade”. Para que exista como grupo social relevante e visível, é necessário que essa “comunidade” seja imaginada e a maneira de fazê-lo mobiliza práticas ativadas por protagonistas diversos. O objetivo, nesse caso, era o de sistematizar os modos pelos quais a identidade de “moradores da Vila Universitária” ganha corpo, privilegiando o diálogo com os momentos de mobilização social. Quais são os projetos políticos e quais são seus protagonistas e apoiadores dentro e fora da Vila? Eis a questão crucial desse esforço de pesquisa, que abrangeria o acompanhamento dos projetos em andamento em diversas áreas de intervenção social.
Em um primeiro momento a metodologia utilizada levaria em conta a observação participante, entrevistas e coletas de dados, visando elucidar as trajetórias de vida dos moradores da Vila. A partir disto seria feito um levantamento, tendo como finalidade apresentar a trama e os variados olhares dos atores sobre a origem da Vila Residencial-UFRJ e sobre suas configurações atuais.
Nessa fase da pesquisa, foram entrevistados três moradores que vieram para trabalhar na obra do aterro e construção da cidade universitária (entre 1945 e 60). Uma das moradoras, hoje com cerca de 81 anos, veio com 20 anos trazida por seu marido que já trabalhava na obra. Sua função era fazer e servir comida para os trabalhadores das obras (“dar pensão”). A entrevistada afirmou com orgulho ser a primeira mulher a trabalhar para a UFRJ. Ela morou próximo ao que hoje vem a ser o campus da prefeitura até 1978, quando foi removida para o espaço onde hoje se situa a Vila Residencial.
Outro morador, que também veio do Nordeste trazido por seu pai em 1961 para trabalhar nas obras da universidade, residiu em casas do tipo alojamento para homens próximo ao campo da prefeitura. O terceiro entrevistado veio do Nordeste em 1936, começou a trabalhar na universidade em 1958 já no ETUB (Escritório Técnico da Universidade do Brasil); simultaneamente ao período de trabalho na universidade, concluiu seus estudos e se aposentou como arquivista.
Dos três entrevistados, dois vivenciaram em 1978 o processo de remoção do local onde residiam para o canteiro de obras que tinha por finalidade abrigar os trabalhadores da construção da Ponte Rio-Niterói – local hoje conhecido por Vila Residencial.
Em uma segunda fase de pesquisa continuamos o trabalho de mapeamento, através de um estudo etnográfico, das trajetórias e mudanças ocorridas na Vila Residencial da UFRJ, a partir da fala de antigos moradores do arquipélago - nove ilhas pertencentes à Enseada de Manguinhos do Estuário Inhaúma - onde hoje está situada a Cidade Universitária. A história da Vila Residencial se confunde com a própria história de criação da UFRJ na Ilha do Fundão, onde seus mais antigos moradores foram trabalhadores da construção dos primeiros prédios da Cidade Universitária erguidos sobre oito ilhas aterradas. As famílias existentes no local e os migrantes do nordeste foram absorvidos como força de trabalho. Muitos trabalharam como servidores da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, vigilantes que ajudaram a tomar conta das entradas da cidade e operários da construção civil (pedreiros, pintores, eletricistas, etc.), sendo posteriormente absorvidos no quadro de funcionários da UFRJ. Alguns foram removidos em um momento onde ainda não existiam respaldos jurídicos para os moradores nativos, outros permaneceram por terem algum vínculo com a universidade. Os atuais moradores da Vila Residencial são funcionários (ativos e aposentados da UFRJ), ou trabalhadores de iniciativa privada, terceirizados e seus dependentes.
Nessa segunda fase da pesquisa a metodologia aplicada se materializou com entrevistas, agora mais aprofundadas, priorizando a perspectiva dos moradores acerca das experiências envolvendo a construção, ocupação e transformações da Vila Residencial ao longo de pouco mais de 40 anos.
Nos organizamos fazendo a divisão das tarefas entre os pesquisadores, ficando estabelecidos quatro eixos temáticos para a realização de entrevistas e observação, explicados a seguir:
O primeiro focaliza as histórias contadas pelos moradores mais antigos da Vila que residiram nas ilhas e seus descendentes. Essas histórias foram sendo registradas, tanto através de entrevistas mais convencionais, quanto através de um procedimento que visava articular memória e espaço. Neste último caso, a entrevistadora acompanhava o circuito que era feito entre as ilhas por seus entrevistados, circuito que era comentado por estes (“visita-guiada, ou seja enquanto andavam pelo trajeto das antigas ilhas, hoje Cidade universitária, iam relembrando suas histórias”).
O segundo toma os vários segmentos religiosos existentes, suas atividades comunitárias e as diferentes relações que estabelecem com a Vila e seus moradores. A partir de um mapeamento das igrejas presentes na Vila, seriam feitas entrevistas e atividades de observação.
O terceiro se volta para a compreensão do movimento associativo existente e suas relações com a Vila e a universidade. Seriam realizadas entrevistas com moradores da Vila Residencial que atuam na Associação de Moradores, bem como com ex-integrantes da Associação e com moradores apenas associados.
O quarto constitui uma experiência de observação participante dos pesquisadores em atividades artísticas desenvolvidas pelos moradores. A idéia era acompanhar as crianças que participavam do Lab Lata – Laboratório de Fotografia Pinhole, desenvolvido na Vila, que se propunha, através de uma técnica alternativa de produção de imagens, a refletir sobre o ato fotográfico, o papel do fotógrafo e as relações que estabelece entre os espaços vividos e as imagens fotografadas.
O tratamento desses eixos foi idealizado pelos coordenadores do projeto, de maneira que cobrisse as diferentes visões de grupos sociais constituintes da Vila. Os resultados consistiriam no registro dos relatos e na produção de um vídeo.
O que veremos a seguir são algumas notas iniciais acerca dos resultados de pesquisa, tomando como referência os quatro eixos já delineados em 2006. Desses quatro, um não pôde ser implementado pela interrupção das atividades do Lab-Lata. Dos outros três, o eixo mais explorado foi o primeiro, sobre as narrativas dos moradores mais antigos, devido a sua centralidade para o projeto. As notas analíticas são complementadas pela transcrição de uma entrevista referente ao segundo eixo e de uma síntese sobre outra referente ao terceiro eixo. A transcrição dos demais registros está sendo preparada e estará em breve disponível. Além disso, um primeiro vídeo já foi produzido para ser apresentado na Jornada de Iniciação Científica de 2006, contendo imagens fotográficas e textos. Um segundo está sendo preparado a partir das filmagens que foram realizadas durante os passeios de moradores mais antigos pelas ilhas que formam o Fundão.
Antes de passarmos às notas referentes ao primeiro eixo, alguns pontos gerais podem ser mencionados. A Vila Universitária parece estar marcada por uma situação e por uma impressão de ambigüidade, na medida em que sobre ela se projetam fatores e representações que apontam em direções opostas. Por exemplo, ao mesmo tempo em que os moradores elogiam a “tranqüilidade” do lugar, reclamam de seu isolamento (“sem carro não se sai daqui”). Em outro plano, configuração semelhante se instaura quando se confronta a precariedade das condições de vida e de moradia ao vínculo (mal definido) que associa o lugar a uma instituição tão importante na esfera pública quanto a UFRJ – a própria relação com a UFRJ é perpassada por ambigüidades, uma vez que a universidade ora aparece como uma ameaça, ora como uma aliada.
Outra observação dirige-se à própria constituição da Vila, partindo-se da constatação de que a relação com a UFRJ não parece suficiente para defini-la. Sua formação não pode ser desvinculada de processos históricos que estão relacionados com a cidade como um todo e com seu lugar no país. Assim atestam a construção da Ponte Rio-Niterói e a presença de imigrantes nordestinos entre seus moradores. Focando-se no presente, percebe-se que embora os funcionários e seus dependentes constituam a maioria dos seus moradores, há moradores sem vínculos com a universidade. Essas e outras indicações apontam para a heterogeneidade desse lugar e se expressam em questões recorrentes para seus moradores, como as oposições entre mais velhos e mais novos e a definição de formas de mobilização que não sejam excludentes sem deixarem de ser justas. Evidentemente, essas observações não afetam – apenas complexificam – o papel de mediação que a UFRJ pretende desempenhar na relação entre a Vila e a cidade.
3.1. As narrativas dos moradores antigos
As ilhas eram nove, como nos informam a cartografia e seus antigos moradores. Todas eram habitadas, por moradores e famílias que podemos identificar a princípio como descendentes de portugueses, índios, e nordestinos (que em sua grande maioria aqui chegaram para trabalhar nas construções do começo do século no Rio de Janeiro (Pereira Passos)).
Pela fala de seus moradores, podemos identificar a ocupação dessas ilhas. A Ilha da Sapucaia era onde moravam os descentes de portugueses empregados no Departamento de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro, ou seja, funcionários do Estado. Uma parte dessa Ilha (onde hoje se encontra a Vila) era usada como aterro sanitário, onde atracavam barcas transportando restos de comida, animais mortos e restos de construções antigas. Nesse local podiam ser encontrados pedaços de pedras preciosas e ouro - destroços de construção dos grandes monumentos e casas - que agora eram demolidos para dar lugar à nova cidade. Na localização onde hoje se encontra a Divisão de Transportes da UFRJ, ficava o Cais de onde vinham esses carregamentos. Também tínhamos nessa ilha um pequeno cinema e uma escola. No inicio as moradias se encontravam na altura do IEN, próximo ao local do aterro sanitário.
Na Ilha do Fundão, compreendida entre a BIORIO e a ponte que liga o fundão à Ilha do Governador, morava seu João, sua filha e sua esposa. Alguns falam que os três eram índios; outros falam que apenas a esposa e a filha: há várias versões para essa família. Na Ilha do Catalão houve uma grande concentração de famílias, em sua grande maioria nordestinas; no momento da remoção algumas foram despejadas, outras passaram para vila e outras ainda foram morar em conjuntos habitacionais - eram as três alternativas apresentadas. Quem a universidade absorvia como funcionário tinha duas escolhas: conjuntos habitacionais onde pudessem assumir uma mensalidade, ou vila residencial. Os moradores desta ilha dizem que ali deveria ter existido uma senzala, pois lá ainda existia uma “Casa-Grande” com restos de correntes e um local onde deveriam ser presos os escravos. As lendas acerca dessa localidade são muitas, existindo até a hipótese de ser mal-assombrada.
A Ilha de Baiacu era assim nomeada pela grande incidência local de cardumes de peixes dessa espécie; nela existiam famílias cuja principal fonte de renda era a pesca. De um modo geral, podemos dizer que as famílias das ilhas, em sua grande maioria, quando não estavam envolvidas com a construção civil, viviam da pesca.
Já a Ilha das Cabras levou esse nome pois ficaram marcadas em seu contexto de existência, famílias que faziam a criação de cabras que abasteciam de víveres as demais ilhas do arquipélago. Ali ficava localizado o arsenal de armamentos da aeronáutica, e seus moradores também faziam parte da segurança da base aérea. Pouco temos a falar sobre essa ilha pois surgiu com essa finalidade e ainda hoje é vista por essa peculiaridade.
As Ilhas Pindaí do França e do Ferreira eram muito próximas do que hoje é a prefeitura universitária e o ETU, coração da universidade principalmente no momento de sua construção. Ali, além de moradores fixos como a Srª Avelina e seu esposo, existiam alojamentos que abrigavam os trabalhadores que ainda não haviam se estabelecido com suas famílias. Ficava mais ou menos na área hoje compreendida entre o CCMN e o Hospital universitário. Ali também estava localizada a pensão onde todos podiam almoçar e descansar antes de pegar no “batente”.
Na Ilha do Bom Jesus, ilha militar compreendida entre o CT e a margem da baía da Guanabara até o quartel, também se encontravam famílias que resistem até hoje à remoção. Viviam e ainda vivem da pesca para venda bruta ou terceirizada, ou seja, possuem um bar onde todos podem comer um peixinho frito ou cozido.
O transporte interno no arquipélago era todo feito por barcos, ou chatas (barcas); a água não era potável e tinha que ser transportada do bairro de Ramos para as ilhas. A travessia entre algumas das ilhas em maré baixa podia ser feita a pé, ou em pequenos barcos.
Os entrevistados apontam que ao chegarem para iniciar os trabalhos de aterro e construção dos prédios da UFRJ ouviam piadas relativas ao seu local de origem. Os três, sendo naturais do nordeste, ouviam expressões do tipo: “É da terrinha?” ou “A faca sobe de cima para baixo?”. Entendemos que essas expressões marcam a diferenciação entre os grupos. As frases citadas acima fazem referência aos trabalhadores oriundos do Nordeste que enfrentaram determinados distanciamentos devido à sua naturalidade. Os entrevistados mencionam a existência de uma índia, vista nas localidades em frente ao mar, que segundo os mesmos olhava a lua e era triste. Um dos entrevistados mencionou a figura de um “malandro”, um trabalhador não morador da ilha que se trajava caracteristicamente como dançarino de gafieira.
Entendemos que hoje, existem os moradores da atual Vila Residencial que passaram pelo processo da remoção em 1978 e existem aqueles que vieram de lugares externos às ilhas da cidade universitária pós-remoção. Portanto são dois grupos diferenciados que tomam como referência de vida no local a remoção em 1978. Com base em terminologia utilizada pelo sociólogo Norbert Elias, os moradores mais antigos em análise inicial compreendemos como os estabelecidos; os moradores mais recentes entendemos como outsiders.
As narrativas dos moradores antigos cultivam o “mito” de seu passado e o têm como a diferença decisiva entre eles e os "outsiders". Guardam ciosamente um acervo enorme de lembranças, apegos e aversões quanto aos fatos e itinerários coletivos (reais e fantasiados) da vida da “aldeia”. O grupo estabelecido sente-se com isto mais seguro e garantido quanto à sua coesão interna e valor. Os comportamentos de seus membros no dia a dia têm aí sua principal referência para a convivência necessária com os demais. Em entrevista, um dos moradores considerado pelo grupo como “morador antigo”, ao referir-se à determinadas lembranças se dizia incapaz de reproduzi-las à altura de um outro morador que morava há mais tempo. Esse comportamento nos permitiu refletir sobre a possibilidade desses grupos se representarem sob o espectro da hierarquia interna, usando como critério a ordem de precedência dentro do próprio segmento dos “antigos”.
A Vila residencial se apresentou inicialmente nesta pesquisa marcada por grupos que se distinguem de acordo com o sentimento temporal em relação aos outros moradores. Os critérios utilizados pelos moradores do tipo “antigo” e mais “novo” nos proporcionaram pensar em um esquema mental hierárquico onde a prioridade na chegada ao lugar se tornou o principal fundamento a ser aceito pelas duas partes. As narrativas expressam as posições referidas ao “status” dos moradores à medida que a fala dos “antigos” se torna a fala da tradição e da representação histórica da Vila em relação ao morador novo.
Ao longo do trabalho percorrido até aqui, foi-se materializando a idéia de que vale a pena levar em conta, como possibilidade interpretativa com valor crítico para a pesquisa, a existência de rituais de passagem. Em todas as culturas sempre estiveram presentes cerimônias assinalando a passagem de uma pessoa para uma nova fase, ligada à idade, lugar, estado ou posição social, realização pessoal, familiar, profissional ou espiritual e outras que ainda não se tenha tomado consciência. Infelizmente, com o advento das sociedades modernas, estas comemorações foram reduzidas, algumas desvirtuadas, outras escondidas, restando algumas poucas que marcam socialmente de forma abrangente estas transições (como batizado, casamento , enterro e mudança residencial, por exemplo).
Os rituais de passagem em sua grande maioria implicam no uso de maus tratos, de dor e, naturalmente, temor e angústia dos envolvidos. No entanto esses acontecimentos podem ter por finalidade fortalecer, pelo sofrimento (comum), os laços de solidariedade entre um grupo de candidatos, ou provar aos envolvidos e à sociedade a sua importância. Contudo ainda podem ser explicados em termos da hostilidade concentrada e verificada entre dois grupos de pessoas; os que praticam e os que sofrem os maus tratos, cujas partes, por sua vez, apresentam-se em vias de ser incorporados à categoria do primeiro.
Tentando perseguir essa idéia, da ida para morar na Vila como um ritual de passagem - levando em consideração as diferentes proporções e as trajetórias de vida de seus diversos moradores - é que comentamos preliminarmente a construção de uma memória da Vila. Não se pode perder de vista alguns aspectos importantes, como a localidade onde viviam e a maneira como se deu a locomoção/ remoção.
Quando trabalhamos com “memória” toda fala tem importância e sentido; às vezes não aparecem à primeira vista, mas aos poucos vão completando linhas de raciocínio dando sentido a longos períodos de pesquisa. Um bom exemplo para tentar explicar essa situação se traduziu muito cedo na pesquisa. Quando perguntávamos aos moradores se gostavam de morar na vila, duas respostas surgiam: “Sim, eu adorei vir morar aqui, este local é muito calmo; apesar da falta de infra-estrutura temos uma casa que é nossa” (esse entrevistado não se preocupava nem com a idéia de não ser proprietário de fato); no entanto, outros diziam não ter gostado nada de ter que vir morar num lugar tão distante de tudo, sem infra-estrutura, sem nenhuma garantia de moradia. Já nesse momento pudemos detectar uma lacuna e indagar o porquê dessa diferença.
Posteriormente, alguns começaram a se abrir mais e falar de onde haviam saído para vir morar na vila. Surge aí a primeira constatação: os que gostaram à primeira vista de morar na vila foram alguns funcionários, que moravam na Baixada fluminense, no complexo da Maré (ainda palafitas) e que foram autorizados pela universidade para residir na localidade; em contrapartida, o outro grupo eram os moradores das antigas ilhas que tiveram o prazer de viver a natureza em sua essência e que por motivos de ordem prática da instituição foram removidos para a vila de forma muitas vezes agressiva, pois tiveram que deixar suas casas nas mais diversas localidades da cidade universitária, mais próximas das saídas de prédios recém- construídos, para morar em um local distante de tudo e sem a mínima infra-estrutura.
3.2. As igrejas na Vila
As observações, no período do Projeto, se fixaram basicamente sobre a presença da Igreja Católica. Dois pontos podem ser destacados: por um lado, a construção do templo no local mais valorizado da Vila e a conseqüente ocupação daquele espaço central veio da iniciativa dos próprios moradores – foi apenas em um momento posterior que ocorreu a presença de um sacerdote (capelão militar) e de religiosas (que moram no local). Por outro lado, isso não significa que não haja tensões com os moradores da Vila e com outros de seus agentes. O espaço onde se localiza o templo católico é também o espaço predileto para o lazer na Vila, especialmente o das crianças. Uso religioso e uso profano, nesse contexto, podem se confrontar, como assinala o fato de que a imagem sacra ali colocada ser às vezes é apropriada para uma brincadeira infantil. Outro indício que vai na mesma direção é o espaço utilizado como moradia pelas religiosas graças a uma cessão da associação de moradores; o mesmo espaço já havia abrigado uma creche e a atual gestão da associação de moradores faz questão de lembrar essa destinação comunitária. A mesma gestão ainda avalia que a Igreja Católica peca por pouca intervenção “comunitária” no bairro.
3.3. O perfil da AMAVILA
A AMAVILA – Associação de Moradores e Amigos da Vila Residencial, localizada na Ilha da Sapucaia, no complexo Universitário do Fundão – RJ, após várias fases e momentos políticos, tem, no trabalho desempenhado pela gestão “Transformar Para Mudar”, a concretização das ações formadoras/transformadoras de políticas públicas.
Observamos que o movimento social planejado e organizado desta gestão, apoiado no excelente grau intelectual e visão estratégica de seus atores, vem possibilitando e viabilizando, através de suas ações, percorrer caminhos antes impossíveis de serem trilhados devido ao forte assistencialismo que ali era empregado. E em certa medida vem contribuindo com outro fator fundamental e importante que é o registro da memória de suas vivências.
Nas entrevistas realizadas, identificamos que mesmo os moradores que demonstram indiferença em participar nas mobilizações, ou ainda, o “estrangeiro” que por natureza, não é “proprietário de terra” e conseqüentemente não se sente parte do grupo (SIMMEL), contribuíram, pois foram ponto de apoio para o desenvolvimento de uma “sociabilidade pura” para os que se mantiveram de forma associada à frente do movimento que agrupou em unidade, dados concretos e imediatos de sua realidade histórica e que está presente neles de maneira a engendrar ou mediar influências sobre outros, ou que receba tais influências (SIMMEL). Cada pessoa ali moradora está possibilitando alcançar um projeto formulável em termos comuns.
Após os dissabores de terem sido excluídos, sem qualquer tipo de explicação, de dois Projetos Urbanísticos, eles hoje vêem o início da luta ter o primeiro resultado favorável. Em 26.10.2006, a Vila Residencial recebeu o aval para a aplicação de resultados positivos na implantação de políticas públicas que atendam suas necessidades. Esta possibilidade toma corpo e robustez de fato e de direito após a visita de representantes do Ministério das Cidades / DF que lá estiveram, atentos aos clamores locais.
A pesquisa busca recuperar as identidades locais. Cabe inserir nesse contexto um modo de produção que retrata não uma realidade estática, mas a pluralidade das culturas, que constrói, ou tenta construir, um discurso de identidade associado à questão da luta dos moradores da vila, marca de um agrupamento, moradores da Ilha do Fundão, na tentativa de “reconstituir” sua história através da oralidade, buscando garantir sua existência no futuro, que se encontra ameaçado pela construção de um parque industrial que fará a Vila Residencial desaparecer para dar espaço a seus novos prédios. Quando vemos que quem irá se debruçar sobre o tema é uma moradora nova (dez anos na Vila), percebemos a importância da cultura letrada com relação à cultura popular de base oral ,ou seja, era o discurso oficial que viria mostrar a tradição oral do povo, tendo em vista que só se consolidaria quando reconhecida, passando a fazer parte de um registro regulado pela sociedade, o registro escrito. Outro aspecto a ser levado em consideração era o fato de que, supostamente, por não terem uma história (e existência) registrada formalmente, não teriam, também um legado cultural, este é um dos nossos maiores desafios, tentar apreender o legado cultural deste grupo, através das suas próprias formas de preservação e transmissão. Logo “questões de cidadania” passam à sua margem. Esses moradores, não reconhecidos como cidadãos, são vistos como um grupamento fora das estatísticas oficiais do governo, ou seja, não existem.
Enquanto pesquisadores, temos que levar em consideração que tudo que vivemos, ouvimos, vemos atravessar em nosso íntimo por uma releitura e (re) construção de acordo com nosso modo de ver , ser e de pensar que é derivado das experiências que passamos durante nossa vida, logo traduzimos tudo aquilo que percebemos. Quando tentamos reproduzir algum fato, ele terá a nossa percepção e versão pessoal, logo não será mais original, mais uma tradução de como o sentimos.
Observamos várias versões do mesmo acontecimento, vários tipos de narrativas contando o mesmo fato; existem divergências no modo de contar, porém a essência da história é resguardada.
O escritor/ tradutor (nesse caso a moradora) sente-se ineficaz diante de uma tarefa tão complexa e grandiosa, pois como resolver a tarefa difícil de traduzir uma narrativa oral que esteve sempre em movimento, presente na voz dos moradores, para um registro escrito, estático, que só concede uma variante (versão) que é para sempre?
Outro debate que se constitui a partir das questões levantadas foi o papel do militante, a construção da análise etnográfica e as decisões políticas sugeridas nesse processo. A pesquisadora, ao problematizar algumas das questões surgidas com os dados de pesquisa, interou a necessidade e a importância da observação participante no processo etnográfico da pesquisa, quando essa permite uma imersão num outro espaço de vida.
Ouvir as pessoas, sujeito das intervenções públicas, exige um tempo e um exercício particular (particularidade que traduz a necessidade e importância da antropologia nesse processo). Nesse caso em especifico e ainda em muitos lugares do país, o antropólogo terá que pensar em políticas públicas de assistência (na falta do poder publico); ou ausência da vontade de diálogo e participação popular (no caso da Vila, isso ocorre devido ao período de ausência de políticas públicas na localidade).
A construção da alteridade, nesse caso, tornou-se difícil, principalmente com relação ao lugar do pesquisador frente ao ator político. Além de se colocar à frente dos problemas vividos pelos moradores da Vila, ele (o antropólogo) necessitou analisar e ver de frente o quão complexos são os problemas vividos pelos próprios agentes de políticas públicas. Ocupar o lugar de mediador/ sujeito, entre o poder público/ e os sujeitos da ação, muitos engajados (politicamente ou não), exige uma nova invenção do olhar antropológico. Em contato com os membros da própria Vila, a pesquisadora também se preocupou com certos compromissos éticos, levando em consideração que a analise antropológica do mesmo modo que levanta os estereótipos, também corre o risco de reafirmá-los.
Foi importante reafirmar o papel do pesquisador, nesse contexto, sua duplicidade de pesquisador e militante. Não é possível firmar o debate numa suposta neutralidade acadêmica, mas tomar uma permanente vigilância ética no processo político de tradução de valores e identidades.
Relatório de Eduardo Mourão Lacerda
Considero que minha participação no Programa está sendo vital para minha graduação; tomei contato pela primeira vez com a Extensão, de uma forma geral, esta que é um dos pilares de atuação da UFRJ e talvez seu maior ponto de ação e convergência com outros setores da sociedade. Pude alargar meus limites espaciais na UFRJ, já que estudo no IFCS, no centro do Rio, e muito pouco conhecia da realidade do Campus do Fundão e da Praia Vermelha, e muito menos da existência da Vila Residencial, foco do projeto que participei. Também alarguei muito minha experiência universitária, pois através do Programa entrei em contato com estudantes de diversas outras áreas da Universidade, e pudemos trocar muitos conhecimentos e viver muitas experiências que virão a enriquecer o processo de formação acadêmica individual de cada um. Foi fundamental a experiência humana de contato com a realidade da Vila Residencial, a possibilidade de travar conhecimento com os moradores e sobre aquela realidade construir conhecimento também. A possibilidade de intervir positivamente na realidade da Vila através da extensão foi o maior ganho que o Programa particularmente me proporcionou. É muito gratificante o reconhecimento dos moradores para com o trabalho, que proporciona trocas memoráveis entre segmentos distintos da sociedade e articula dimensões das realidades “local e extra-local”, inserindo-nos (moradores e estudantes) um sentimento coletivo de participação, envolvimento e pertencimento.
Fundamental para minha formação foi a possibilidade de realizar pesquisa e trabalho de campo na Vila, e experimentar na prática lidar com conceitos-chave para a área de Ciências Sociais, e mais especificamente de antropologia. Depois de dois anos fazendo graduação, foi uma oportunidade única de transpor estes conhecimentos teóricos acumulados para uma realidade prática, tendo que trabalhá-los e adequá-los a uma realidade específica e complexa.
Por fim, devo ao Programa a oportunidade de apresentar um trabalho pela primeira vez em um Congresso de Extensão e numa Jornada de Iniciação Científica. Foi fabulosamente enriquecedor, em ambas os casos, travar contato direto com trabalhos de praticamente todas as áreas e envergaduras da UFRJ, apresentando aos colegas meu trabalho e recebendo deles conhecimento sobre diversas áreas as quais muitas vezes desconhecia.
Relatório de Maria Fátima Farias
Foi muito importante estar participando do programa, pois foi através dele que após 4 anos na graduação pude pela primeira vez participar do Congresso de Extensão e da Jornada de Iniciação Científica.
Estar participando da pesquisa possibilitou conhecer uma outra realidade na própria Universidade.
Pude desenvolver os conceitos apreendidos em sala de aula confrontando-os na prática.
Facilitou para a interação com outros colegas estudantes de outras faculdades, muito necessárias, no nosso entendimento, na formação acadêmica. É muito importante este trabalho com outros companheiros de outras áreas; é uma troca riquíssima de conhecimento.
O mais gratificante foi poder trocar energia com pessoas tão cheias de vida, como são os moradores da Vila Residencial.
Foi importante sentir na prática como realidades distintas da nossa tem tanta importância para seus afetos e que por não conhecermos não nos desperta atenção. Essa compreensão só vem depois que passamos a interagir e sentir o que o outro pensa, sente, gosta, deseja. Provavelmente se não fizéssemos parte desta equipe haveria grande chance de que não nos sensibilizássemos com os anseios e sonhos desses moradores da Vila Residencial.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Modos de habitar, conflitos e dramas sociais: As disputas pelo uso “lugar” numa Vila Residencial
Como parte de uma linha de pesquisa desenvolvida pelo LE Metro, (Laboratório de Etnografia Metropolitana/DAC-IFCS-UFRJ) - coordenado pelo Prof. Marco Antonio da Silva Mello - que tem como enfoque central o estudo das “habitações coletivas” nos seus mais variados campos empíricos, tais como cortiços, favelas, casas de estudantes, conjuntos habitacionais, vilas operárias, loteamentos periféricos etc, nosso trabalho tem como principal objetivo buscar compreender o modo como se configura o processo de uso e acesso ao uso do espaço de âmbito coletivo, o espaço público, numa Vila Residencial situada na Ilha do Fundão, dentro da cidade universitária da UFRJ.
Trata-se de pensar a dinâmica dos conflitos que envolvem os inúmeros agentes sociais em suas disputas pelo uso do “lugar”, o drama social vivido pelos moradores com o processo de regularização fundiária, as formas de negociação da gestão das distâncias sociais, a questão da divisibilidade da propriedade, a coexistência de valores aparentemente díspares como os valores atrelados ao individualismo e os valores identificados com formas de associação “comunitária”, os diversos modos de habitar criados pelos moradores da Vila, a visível estratificação social, a co-presença de instituições oficiais ligadas ao Estado, no âmbito federal, estadual e municipal, (incluindo aí a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ ) e organizações locais como a associação de moradores (AMAVILA), algumas ONGS,e os próprios moradores(com suas demandas significativas e “autônomas”, nem sempre vinculadas a estas instâncias mediadoras) todos em disputa pelo monopólio do uso e do acesso ao uso do lugar.
Este trabalho é parte de um projeto de extensão vinculado ao Programa de Inclusão Social da Vila Residencial da UFRJ.
Trata-se de pensar a dinâmica dos conflitos que envolvem os inúmeros agentes sociais em suas disputas pelo uso do “lugar”, o drama social vivido pelos moradores com o processo de regularização fundiária, as formas de negociação da gestão das distâncias sociais, a questão da divisibilidade da propriedade, a coexistência de valores aparentemente díspares como os valores atrelados ao individualismo e os valores identificados com formas de associação “comunitária”, os diversos modos de habitar criados pelos moradores da Vila, a visível estratificação social, a co-presença de instituições oficiais ligadas ao Estado, no âmbito federal, estadual e municipal, (incluindo aí a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ ) e organizações locais como a associação de moradores (AMAVILA), algumas ONGS,e os próprios moradores(com suas demandas significativas e “autônomas”, nem sempre vinculadas a estas instâncias mediadoras) todos em disputa pelo monopólio do uso e do acesso ao uso do lugar.
Este trabalho é parte de um projeto de extensão vinculado ao Programa de Inclusão Social da Vila Residencial da UFRJ.
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